Je t’aime. Oui, je t’aime.

Em repouso durante muitos meses, num cantinho do meu quarto, encostada à Felizbina, a Jane B. ganhou finalmente uma nova vida. Não era correcto deixá-la ali, a definhar, negando-lhe o ar fresco do rio e as ventanias dos finais de tarde.


 

 

 

 

 

 

 

Com a preciosa ajuda do meu amigo Xavier (aliás, esta empreitada não teria sido possível sem o jeitinho de mãos do rapaz…) a Jane B. está finalmente operacional e, apesar de cinquentona, no mesmo dia deu logo duas voltinhas: da Ajuda a Alcântara e de Alcântara aos Anjos, e regresso.

Mas quais eram, então, as maleitas da Jane B.? Antes de mais, a evidente necessidade de trocar de pneus e câmaras de ar. O pneu dianteiro aparentemente era o de origem, enquanto o traseiro teria sido já trocado pelo anterior dono. Para evitar problemas, a opção foi trocar tudo.

Os pneus para este modelo BH Gacela são do tamanho 24 1.3/8, um tamanho nada convencional, e que é normalmente usado em cadeiras de rodas. Não são fáceis de encontrar a um preço acessível, mas arranjam-se. Depois, além dos pneus, era necessário trocar um raio da roda traseira, que estava partido, desempenar essa roda e trocar as pastilhas dos travões. À parte destas reparações, a Jane B. precisava de uma limpeza geral, eliminar alguma ferrugem (embora ainda não seja agora que lhe trato dos cromados) e baixar o selim, que estava perro e demasiado alto relativamente ao guiador. Tudo isto se fez. E mais!

A conselho do Xavier, que conhece as lojinhas mecânicas de bairro melhor que eu, foi-se à loja do Sr. Amaro, uma daquelas oficinas à moda antiga em Algés. Além de ter mais anos em cima a arranjar bicicletas do que eu de vida, o Sr. Amaro foi a solução para encontrar tudo o que precisávamos, no próprio dia:

2x Pneu branco 24 1.3/8 – 29.00€
2x Câmara de ar – 9.00€
1x Reflector traseiro – 3.50€
4x Calços travão – 14.00
Além destas reparações, foi ainda necessária lixa para eliminar alguma da ferrugem que encontrámos no interior dos aros, e que poderiam prejudicar as novas câmaras de ar. Depois deu-se um toque de graça à Jane B., pintando com tinta branca os relevos no metal que protege a corrente e ainda umas listas no garfo dianteiro (onde o Xavier e a Leonor tiveram a carinhosa ideia de replicar a assinatura da Jane Birkin, musa inspiradora da Jane B.). A mão-de-obra desta empreitada não tem preço. Obrigada, amigões, por terem dedicado o vosso tempo e carinho a dar nova alma a esta bina.
Anúncios

Conquistar a felicidade a pedal

O título deste artigo contém, escondido, um suave trocadilho. “A pedal” significa, no entendimento popular, que algo anda devagar. A expressão assenta, assim, que nem uma luva naquilo que é a Massa Crítica: um movimento que promove o uso regular da bicicleta nos meios urbanos como meio de transporte, e que devagar, devagarinho, tem vindo a conquistar mais adeptos. Em Lisboa, os encontros decorrem nas últimas sextas-feiras de cada mês.

Texto originalmente publicado na revista DIF de Junho de 2011.

Sob o olhar altivo e atento do Marquês de Pombal é, normalmente, perto da agitada rotunda de Lisboa que os adeptos e curiosos da Massa Crítica – também designada de Bicicletada – se reúnem para dar início aos passeios. Mas os encontros podem começar num qualquer outro ponto da cidade, previamente combinados através das mailing lists e do site a que a Massa Crítica recorre para espalhar a palavra. O fenómeno da Massa Crítica teve origem em São Francisco, nos Estados Unidos e, por cá, foi em 2003 que a pedalada organizada começou, na altura com apenas 14 participantes. Hoje, os adeptos já chegam às duas centenas. Contudo, a Massa Crítica torce o nariz à palavra “organização”, preferindo ver os encontros como “coincidências organizadas”. E desengane-se quem pensa que a participação está limitada a profissionais do pedal ou a donos de máquinas ultra caras e sofisticadas. Há mesmo alguns participantes que nem bicicleta têm, pelo que é comum algumas lojas – como a LisbonHub, ao Cais do Sodré, por exemplo – emprestarem velocípedes para a concretização dos passeios. Os percursos, que duram entre uma a duas horas, vão variando, sendo as artérias citadinas os caminhos escolhidos, por forma a demonstrar como a cidade pode ser perfeitamente ciclável, desde que se cumpram as normas básicas de segurança quando se pedala no meio do trânsito. E é verdade que a união faz a força, pois se um ciclista não impresssiona muita gente, 100 ciclistas a descer ou a subir uma avenida já impressiona muito mais! O recorde de participações é de 230 pessoas num encontro, em Setembro do ano passado*. «Esta “segurança através da quantidade” torna a Massa Crítica uma excelente forma de iniciação à utilização de veículos suaves em espaço urbano”, lê-se no site da iniciativa.
Para quem nunca participou numa Bicicletada e ainda está com dúvidas, convém esclarecer que os percursos não são demasiado exigentes nem será necessário pedalar com muita velocidade, pois o objectivo é, precisamente, levar a que cada vez mais pessoas adiram e vejam a bicicleta como uma alternativa de mobilidade regular. Além de Lisboa, a Massa Crítica acontece no Porto, Coimbra, Aveiro, Braga, Évora, Guarda, Sines, entre outras localidades. Mas atenção, que a regularidade dos encontros é escrupulosamente cumprida, todas as últimas sextas-feiras de cada mês, pelas 18h00, faça chuva ou faça sol, esteja frio ou calor.
Quem visita o site da massa Crítica encontra algumas informações que visam esclarecer algumas dúvidas aos iniciados como, por exemplo, indicações sobre o código a estrada, sobre a questão do uso de capacete e ainda sobre os cuidados básicos de manutenção a ter com as bicicletas. Lá estão também disponíveis diversos panfletos e cartazes que podem ser descarregados e impressos a fim de espalhar a palavra da bicicleta enquanto veículo de mobilidade urbana, e não apenas enquanto instrumento desportivo. Ou, resumindo isto numa só ideia, que dá o mote à Massa Crítica, «anda de bicicleta todos os dias, festeja uma vez por mês.»
Para saber mais sobre a Massa Crítica: www.massacriticapt.net.

*Entretanto, na última Massa Crítica, a 30 de Setembro, o número de ciclistas chegou aos 400.

Bem-vinda, Jane B.

A minha companheira de viagens, a quem carinhosamente chamei de Felizbina, é uma excelente amiga, mas convenhamos: não é a bicicleta mais charmosa do mundo.

Felizbina @Santos

Comprada na Decathlon há cerca de cinco anos, é uma humilde Rockrider B’twin que não envergonha ninguém e que não me deixa apeada em nenhum tipo de terreno, quer seja estrada, quer seja a descer uma encosta num pinhal. Para meu conforto, fiz-lhe algumas alterações, tais como colocar um avanço no guiador, novos pedais, suporte para os alforges, etc. No entanto, falta charme.

Ora, a razão pela qual nunca me atrevi a fazer amizades com novas bicicletas – e tanto que me apetecia trazer para Lisboa a bicicleta pasteleira que está em casa dos meus pais… – é a tremenda falta de espaço. Num  apartamento com 45m2, sem varanda nem hall de entrada, com acesso por íngremes escadas de madeira, não é fácil ter uma bicicleta, quanto mais duas!

Mas o destino prega-nos partidas. O meu amigo T. teve de se desfazer de algumas coisas e, entre elas, estava esta bicicleta Gacela. Fiquei com ela, ainda antes de pensar onde é que a ia guardar, sendo que o mais provável seria ficar junto à Felizbina, no pouco espaço que ainda tinha no quarto. A única informação que tenho sobre a sua proveniência é o facto de ter sido apanhada no lixo.

Aparentemente em bom estado, apenas a acusar a habitual ferrugem de quem já viu muitos anos e pó a cair-lhe em cima, esta nova amiga que me caiu nos braços é então a mais recente habitante das minhas águas-furtadas. Acredito que com uma boa limpeza naquela ferrugem, pneus novos e um ou outro acessório adequado, irá proporcionar belíssimos pedalovoos pela cidade.

Jane B.

Depois de algumas pesquisas não muito frutíferas sobre as bicicletas Gacela – descobri entretanto uma ‘irmã’ no blog La Bici Rural – ando na fase de ler dicas na net sobre como limpar eficazmente a ferrugem das bicicletas antigas. Logo que possível darei início ao trabalho de recuperação da Jane B. Ah, sim, faltou explicar que já baptizei a minha nova amiga. chama-se Jane Bikeen. «Je t’aime je t’aime. Oh oui je t’aime.»

De Lisboa ao Mundo em cinco horas

Cerca de um mês depois da primeira incursão ao Alentejo em cima de uma bicicleta, novos planos de viagem se alojaram na minha mente. Desta vez éramos quatro a pedalar. Com o Festival de Músicas do Mundo na mira, pegámos nas rodas e nos alforges, e seguimos viagem até Sines, no encalço dos ritmos e melodias universais.  

Sexta-feira, 23 de Julho. O Festival de Músicas do Mundo começa hoje e, tal como sucede há já alguns anos, é altura de rumar a Sines para vários dias de descobertas musicais. Como habitualmente, um grupo de amigos tem uma casa alugada para a temporada. Mas este ano a minha viagem de ida é diferente: não de carro, não de autocarro, mas de bicicleta. Somos quatro a pedalar e o encontro está marcado para as 10h00 na estação de comboios do Areeiro. O percurso programado é praticamente o mesmo da viagem feita em Junho, com a diferença de o destino ser Sines. Calculamos chegar ao final da tarde, pedalando nas calmas. O regresso será feito de carro, no domingo dia 31, uma vez que voltaremos a Lisboa em dias desfasados – e eu ainda não me aventuro sozinha nestes percursos de longa distância.

Saio de casa, em Alcântara, e rumo ao Cais do Sodré com o objectivo de apanhar o metro até ao Areeiro, de forma a chegar mais rapidamente. Sou de repente confrontada com a realidade: as bicicletas não podem circular no metro nos dias úteis senão após as 20h00. Tento fazer olhinhos e mandar charme ao segurança, mas nada feito. Volto à superfície e sigo em direcção à Avenida Almirante Reis, uma artéria lisboeta que ainda não tinha à data percorrido de bicicleta. Algum dia teria de ser a primeira vez. Tudo tranquilo, não há muito trânsito e a subida, apesar de constante, é ligeira. Chego ao Areeiro e, depois de um café e dois dedos de conversa com os companheiros de viagem, embarcamos no comboio em direcção a Setúbal. Tal como suspeitávamos, não nos foi possível colocar as quatro bicicletas na mesma carruagem, pelo que dividimos as máquinas por duas carruagens – apenas na primeira e na última é permitido levar bicicletas.

Céu azul, cegonhas e ventanias

Chegamos a Setúbal e metemo-nos pelas ruelas do centro em direcção à estação de barcos, um percurso já familiar. O céu azul e a temperatura amena prenunciam uma belíssima viagem, e o percurso de ferry até Tróia é um excelente acepipe de energia e motivação para pedalar os quase 80 quilómetros que nos separam de Sines. Assim que saímos do ferry e começamos então a pedalar a sério noto que, relativamente à experiência do mês anterior, o caminho se faz muito mais depressa. Ou seja, quando dou por mim estamos já perto da Comporta, e nem vi os quilómetros a passar. Resolvemos então parar para comer algo, sob o atento olhar das cegonhas que, aqui e ali salpicadas pelas chaminés, nos observavam.

Continuar a ler

Verão Azul pela Costa Alentejana

Três bicicletas. Seis pernas. Duas tendas. Cerca de 300 kms e uma paisagem que sabe a azul quando o vento nos lambe a cara e em redor apenas se ouve o zumbido dos pneus no asfalto. Percorrer a Costa Alentejana de bicicleta não é uma  tarefa tão difícil quanto se poderá imaginar. Em Junho, três amigos fizeram-se à estrada e voltaram com os alforges cheios ventanias, céus e sorrisos.

Texto e fotos: Laura Alves

Dia 1 | Lisboa – Parque de Campismo da Galé | 44 kms

São 8h00. Tudo a postos para rumar ao Alentejo

A decisão de sair de Lisboa no domingo (dia 5 de Junho) e não no sábado teve a ver com as eleições legislativas. Nenhum de nós quis fazer parte da fatia de abstencionistas pelo que, mal as urnas abriram, cada um foi exercer o seu direito de voto. Como íamos sair de Lisboa de comboio em direcção a Setúbal, e ainda era necessário pedalar até à estação de Roma-Areeiro (a estação terminal, que nos daria mais tempo para entrar com as bicicletas), decidimos marcar encontro para as 9h30. O plano desse dia implicava uma etapa curta, pelo que haveria tempo para almoçar em Setúbal e seguir viagem apenas da parte da tarde. A viagem de comboio demora cerca de uma hora e, para quem não tem passe da Fertagus, custa 4,55 euros. Apenas são permitidas duas bicicletas por carruagem e estas devem ir presas, para evitar percalços. Numa das estações, já na margem Sul, entra um rapaz de calções com uma bicicleta equipada com alforges. Não há onde prender a bicicleta dele. Arrisca. Aparecendo, o revisor não iria certamente implicar. A julgar pelo aspecto empoeirado da bicicleta, calculamos que os percursos feitos seriam muito diferentes dos nossos. Acabamos por meter conversa e impressiona-nos o ar entusiasmado com que fala das suas aventuras solitárias por caminhos de terra ali na região. Apaixonado, a resvalar o alucinado, é a ideia com que ficamos. Despedimo-nos com um sorriso nos lábios quando o rapaz sai na Venda do Alcaide. Daí a poucos minutos chegaríamos a Setúbal, mesmo a tempo de um saboroso almoço de choco frito, ou não estivéssemos na terra dele. Pelas 14h30 é hora de apanhar o barco para Tróia. A tarifa é 2,50 euros e, estando bom tempo, a viagem pelo Sado é um prazer de ventos e tons de azul que prenuncia bem a aventura que aí vem.

À espera do ferry

No ferry. A viagem demora cerca de meia hora

A montar a tenda nova pela primeira vez

São então 15h00 quando saímos do ferry e eis que começa a verdadeira viagem – apesar de termos combinado não pedalar entre as 13h00 e as 16h30 por causa do calor, decidimos que a temperatura está adequada a um primeiro esforço, com o objectivo de chegar ao Parque de Campismo da Galé. São cerca de 40 quilómetros com poucas subidas, mas logo me apercebo que se calhar é melhor esperar que o sol fique menos forte: o calor toma conta de mim e decido parar para despir as calças e vestir uns calções mais frescos, por cima dos calções almofadados que já trazia de casa (sim, a felicidade existe e chama-se “calções almofadados”. Serão os nossos melhores amigos durante os próximos dias). Seguimos pela N261, passando pela Comporta, Carvalhal e Pinheiro da Cruz. Pelas 18h00 chegamos ao entroncamento que nos levará ao Parque da Galé. Depois de alguns escassos metros de alcatrão assustamo-nos: o acesso ao parque é, não terra batida, mas areia e pedras. Apercebo-me então que os pneus que trouxe para a viagem (gentilmente emprestados pela loja de bicicletas Lisbon Hub) são óptimos para andar em estrada, mas péssimos para este piso. Afundo-me na areia, resvalo nas pedras, equilibro-me desajeitadamente tentando não cair. Isto vai demorar. Penso nos meus pneus todo-o-terreno e desejo que estivessem comigo neste momento. Acabamos por conseguir fazer os cinco quilómetros com bastante cautela e algumas subidas íngremes. Finalmente, o parque, com uma merecida descida a pique que nos dá uma faísca extra de motivação.

O dono da caravana fez questão de nos mostrar o autocolante da RDA

É domingo à noite, o parque está praticamente vazio; aqui e ali, alguns casais estrangeiros preparam o jantar. Enquanto admiramos uma maravilhosa carrinha da marca Kässbohrer-Setra, um alemão chama-nos para vermos a sua autocaravana. Não fala inglês mas mostra-nos, com orgulho, um autocolante da RDA. Imaginamos as histórias que nos poderia contar, se conseguíssemos comunicar um pouco mais. Após jantarmos no restaurante vamos até ao bar acompanhar os resultados das legislativas com uma cerveja. Passos Coelho vence as eleições. Pedimos mais uma cerveja.

Continuar a ler